sábado, 21 de março de 2026

TRUMP E A LÓGICA IMPERIAL CONTEMPORÂNEA

As decisões tomadas pelo presidente Donald Trump apontam menos para o controle interno da sociedade americana e mais para uma política externa agressiva de reposicionamento estratégico. Essas iniciativas são de natureza imperialista e não totalitária, apesar de não ser predominante, há na política do presidente características que remetem a ações totalitárias semelhantes as praticadas durante a eclosão da primeira e segunda guerras mundiais, como as ações anti-imigração, que tem como fundamento teorias raciais, classificando estrangeiros como seres humanos atrasados e impossibilitados de trazer algum benefício a humanidade, ao contrário são ridicularizados e responsabilizados pelo atraso e desenvolvimento da nação. Cria-se assim uma ideologia xenofóbica de influência e controle das massas por meio da propaganda e disseminação da lógica racista. Segundo a filosofa politica Hannah Arendt, em sua obra Origens do Totalitarismo, Imperialismo e totalitarismo são conceitos políticos diferentes. Um descreve como um país se expande sobre outros; o outro como um governo controla sua própria sociedade. A operação contra o governo venezuelano, com a captura de Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores, ilustra esse movimento com clareza. Trata-se de uma intervenção direta na reorganização de um Estado estrangeiro sob justificativas de segurança regional e estabilidade energética. Esse tipo de atuação tem objetivos claros: controlar áreas consideradas estratégicas dentro da zona de interesse dos EUA. Esse padrão se repete sobre o posicionamento em relação a Cuba. A ilha atravessa uma crise energética prolongada, marcada por apagões frequentes, escassez de combustível e dificuldades estruturais para manter sua rede elétrica operando com estabilidade. Parte relevante desse cenário está associada às sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos e ao endurecimento das restrições financeiras e comerciais mantidas durante o governo, que dificultam a importação de petróleo, o acesso a crédito internacional e a cooperação energética com outros países. Embora apresentadas como instrumentos de pressão contra o regime cubano, essas medidas produzem efeitos diretos sobre a capacidade de funcionamento do Estado e ampliam sua fragilidade econômica. Não é impossível, portanto, interpretar que essa pressão prolongada é uma tentativa de dominação e subordinação estrutural da ilha aos interesses americanos. O padrão reaparece na aproximação militar com Israel em relação ao Irã, na retórica sobre a importância estratégica da Groenlândia dentro do sistema de defesa da OTAN e na política tarifária agressiva contra parceiros comerciais. O chamado “tarifaço” não é um desvio institucional nem uma ruptura democrática, é uma ferramenta clássica de nacionalismo e conservadorismo econômico utilizada para proteger cadeias produtivas e pressionar seus adversários comerciais, como a China, por exemplo. Isso não indica exatamente a tentativa de reorganizar a sociedade americana sob controle ideológico somente. O Congresso vem reagindo as decisões unilaterais do Executivo, mas o que se observa é o objetivo de Trump de subjugar a capacidade econômica e de riqueza de outras nações submetendo-as aos interesses da Casa Branca. No caso do Brasil, a lógica de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como organizações terroristas causa estranhamento porque essas facções não possuem motivação ideológica, religiosa ou política. Seu funcionamento tem fins econômicos e financeiros: tráfico, controle territorial, extorsão e circulação de capitais ilícitos. Transformar organizações em ameaça terrorista internacional altera o enquadramento jurídico e amplia o alcance das operações de segurança dos Estados Unidos na América Latina. Permite sanções mais duras, cooperação policial ampliada, bloqueio de ativos e eventual atuação extraterritorial. Não muda a natureza dessas facções, mas muda o espaço de atuação americana na região. Nesse movimento se encontra uma grande incoerência difícil de ignorar. Parte relevante das armas apreendidas com facções brasileiras tem origem rastreável em circuitos internacionais ligados ao mercado de armamentos, especialmente dos Estados Unidos e, em menor escala, de seus aliados estratégicos como Israel. Isso não significa responsabilidade direta desses países no funcionamento dessas organizações, mas revela um paradoxo evidente: classificar grupos armados como terroristas enquanto fluxos internacionais de armas provenientes desse mesmo circuito contribuem para o fortalecimento desses grupos, gera dúvidas legítimas sobre a coerência dessa política. A redefinição parece menos uma descrição técnica da realidade e mais um instrumento político. Ao ampliar o conceito de ameaça regional, Washington amplia também sua margem de atuação estratégica no continente. Vistas em conjunto: intervenção na Venezuela, pressão econômica e energética prolongada sobre Cuba, pressão militar no Oriente Médio, disputas tarifárias globais, interesse estratégico na Groenlândia e reclassificação do crime organizado latino-americano como terrorismo são decisões que reforçam um padrão claro. Não indicam um controle interno da sociedade americana, mas a tentativa de reorganizar o ambiente internacional a partir da reafirmação do poder dos Estados Unidos. Por isso, a leitura mais consistente dessas ações não é a de totalitarismo. É a de uma política externa de caráter imperial contemporâneo, baseada na expansão de influência e na redefinição da geopolítica internacional, que tem como objetivo a submissão das nações, desenhados por Trump como regiões de ameaça a soberania e segurança dos Estados Unidos da América.

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