terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Qual o valor de uma galinha?

“Não há nessa nação nada de bárbaro e de selvagem, pelo que me contaram, a não ser porque cada qual chama de barbárie aquilo que não é de costume; como verdadeiramente parece que não temos outro ponto de vista sobre a verdade e a razão a não ser o exemplo e o modelo das opiniões e os usos do país em que estamos".   
          Michel de Montaigne¹

No final do ano passado, participei de um congresso sobre comunicação para a Sustentabilidade. Lá ouvi o depoimento do presidente de uma grande construtora. 
Um dos momentos mais interessantes de seu discurso foi quando se referiu a um fato que o deixou indignado, num primeiro momento, e revoltado, logo após. 
Sentado em sua confortável poltrona, no ambiente agradável de sua sala, recebeu através de dois funcionários, a notícia de que uma grande obra que estavam executando, a construção de uma tubulação que passava por baixo de uma grande rodovia, tinha sido interrompida. 
O presidente surpreso perguntou: 
- Por qual motivo? Já que todas as precauções de segurança e de impacto ambiental tinham sido discutidas e resolvidas com as comunidades entorno da obra? 
Os funcionários constrangidos disseram: 
- Porque que mataram a galinha de uma senhora da comunidade.  
Veio o momento de revolta. 
O presidente, incrédulo, esbravejou: 
- Como pode um projeto de milhões de reais ser interrompido pela morte de uma galinha? 
E assim, o executivo resolveu sair de sua sala e se dirigir até o local. 
Ao chegar lá, ficou estarrecido: deparou-se com duas dezenas de pessoas, que interrompiam a estrada, vestidas à farrapos, reivindicando que dessem outra galinha a senhora, seu meio de subsistência, pois dois funcionários da empresa tinham a matado para fazer um ensopado. 
O homem “poderoso” com seus sapatos lustrados nos pés tinha como interesse e valorizava o empreendimento, já a pobre e frágil senhora reivindicava apenas entre as poucas coisas que tinha de “valor”, sua galinha. 
           
Moral da história: nada pode ser mais educativo e convincente para as organizações do que um fato como esse. Para alcançar a alteridade, elas precisam ampliar a escuta e a visão perante seus públicos de interesse, pois a maioria delas permanece surda e cega diante desses fatos. 
Sem suas convicções, as organizações podem desmistificar as suas certezas e verem o que de fato é real. Fora do ambiente organizacional enxerga-se a distinção entre as culturas de seus públicos de interesse.
        
Se doesse nas organizações, como no caso da construtora, que teve sua obra paralisada, sentindo o que os seus públicos de interesse (no caso a comunidade) sentem ao serem lesados, talvez passassem a enxergá-los como organismos vivos e não como empecilho ao seu automatismo.         
     
Isso parece ser um clichê à noção de identidade e do status organizacional, afinal a liderança tem uma natureza, ascendência e cultura diferentes.
      
Basta às organizações ampliarem a sua escuta para a realidade se revelar. Todas elas possuem a soberania, o poder para si, valem-se de ilusões para convencerem e persuadirem seus públicos de interesse. 
     
A prática mais importante para as organizações manterem a credibilidade e agregar valor aos seus serviços e produtos perante seus stakeholders é manter as portas abertas em todas as direções. Esta postura não defensiva nutre compromissos, estabelecendo fundamentos e valores sem que se faça impedimento à geração de resultados da organização. Elas devem ser porosas e serem anfitriãs, terem a mente aberta para mudanças compensatórias que a médio e a longo prazo geram valor institucional e por conseqüência o alcance das metas comerciais ou mercadológicas. 

No Sistema de Compensação, modelo de gestão que venho aqui delineando aos poucos com vocês, leitores, em artigos anteriores a esse, o comunicador está sempre transformando opiniões e juízos em histórias. Sua missão é transformar o discurso direto da organização, que é veemente por natureza, em uma locução hipotética e dialógica focada na sua história e na de seus públicos de interesse. 

Esse sistema se assemelha a uma espécie de hospedagem. Como convidar seus públicos de interesse a serem anfitriões de suas políticas? Como cativá-los para que eles vejam na organização com a qual se desentende, uma aliada?  
1° - Fazê-los perceber que essa fala contém honestidade, coerência institucional e mercadológica e que eles serão recompensados com sua proposta.
2° - Respeitar as diferenças culturais e através delas criar políticas e estratégias compensatórias.
3° - Enfatizar o que há em comum entre organização e públicos de interesse.   
Ao seguir essas premissas a organização deixa seu discurso ególatra e ganha a entonação de entendimento de seus stakeholders.

Abrir os ouvidos para acomodar seus públicos de interesse e lhes dar espaço é hospedá-lo.            
Em termos mais simples, podemos dizer que o Sistema de Compensação é uma espécie de marketing indireto, pois o alcance das metas mercadológicas das organizações depende de uma estratégia que tem como base o fortalecimento da identidade organizacional ou institucional (transparência e credibilidade), focada na alteridade. 

Conhecendo seus públicos de interesse e suas necessidades, a organização tem a possibilidade de agregar valor que proporcione condições verdadeiras que permitam a sua prosperidade e a sua perenidade.     
A comunicação serve como meio e como fim. No primeiro caso, servindo como forma de interação que gera integração entre as interfaces (internas e externas), portanto como forma de diagnosticar através de diálogos, entrevistas e investigações que sirvam de material para estratégias, projetos e execuções as áreas de gestão organizacionais. Como fim, a comunicação serve como meio de projetar, através dos mais diversos canais de comunicação, a imagem como reflexo da identidade organizacional. 

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¹ Michel Eyquem de Montaigne (1533/1592) foi um político, filósofo e escritor francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras, mais especificamente nos seus ensaios, analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objeto de estudo.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A era dos novos gatekeepers


No último artigo falei sobre a evolução dos memes e da influência que eles exercem no organismo social. Nesta abordagem falarei das pessoas que nascem adaptadas a eles e da influência que exercem na sociedade e nos ambientes organizacionais. 

Jovens (novos gatekeepers¹) crescem num ambiente comunicacional paradigmático, onde se configura uma interação caracterizada pela transversalidade. Portanto, um relacionamento que não mais se restringe aos conteúdos produzidos pelas mídias tradicionais.

Hoje, eles produzem seus conteúdos e os disponibilizam em rede, seja através de seus blogs, microblogs e redes sociais.

Além de se diferenciar no caráter estético, com a construção, a convergência de mídias e a não linearidade, as mídias digitais permitem a divergência de opiniões e abrem espaços às discussões e às formações das comunidades. 

Por isso, é um risco as mídias tradicionais e às organizações. À primeira por ter que se adaptar a essas gerações que têm outro tipo de relação com a informação e o conhecimento e à segunda por ter que mudar seus processos de gestão, ou seja, sair de uma administração que ainda vigora, em muitas organizações/empresas, aos ditames do taylorismo e fordismo.

A nova cultura comunicacional condiciona a adaptação das organizações à essa realidade, num processo que muito se assemelha à teoria da evolução de Darwin. A geração X se esforça para adaptar-se ao meio ou o negligência, diferente daquela que já nasce persuadida pela evolução.

As empresas não são diferentes, aquelas que surgem, têm mais facilidade de se adaptarem às novas tecnologias e às mudanças que elas causam no organismo social.  Essa nova configuração é uma ameaça às empresas acostumadas e condicionadas a um modelo mecanizado, o que torna muito mais difícil a adaptação, pois ele está ligado ao automatismo e a valores, cultura, missão e visão organizacional que precisam ser modificadas. 

Como diz Pierre Lévy² “as forças tecnológicas desencadeadas pela engenhosidade humana e a submissão coletiva ao autômato, têm fugido do controle de seus criadores.” 
Enfim, é tempo das organizações repensarem seus modelos de gestão e adotarem novas estratégias que exijam transparência financeira, social e ambiental perante seus públicos de interesse e a sociedade, se quiserem sobreviver à evolução.

Muitos, sem citar os da geração y, já vêm se adaptando às novas mídias e utilizando-as de forma "agressiva" contra organizações que os desrespeitam como consumidores e cidadãos. Imaginem o que serão delas com a nova geração adaptada e muito mais exigente, veloz e voraz por informação e interação digital.
Fica aqui um devaneio: por que será que as organizações não utilizam essas plataformas, com o mesmo potencial que os consumidores ou cidadãos vêm utilizando-as, com objetivo de engajá-los institucionalmente e posicionar sua marca de forma ética, fortalecendo identidade e utilizando-se da comunicação mercadológica para refletir a imagem de forma idônea, condizente com o que realmente é ou faz? 

Muitas organizações/empresas já têm, através de suas propagandas, mostrado a consciência dessa nova configuração social. Basta saber se as imagens que divulgam condizem com as suas reais identidades.

por Ricardo Bressan

Fonte: Aberje


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¹ Gatekeeping é um conceito jornalístico para edição. Gatekeeper é aquele que define o que será noticiado de acordo como “valor-notícia”, linha editorial e outros critérios. Gatekeeper também pode ser entendido como o "porteiro" da redação. É aquela pessoa que é responsável pela filtragem da notícia, ou seja, ela vai definir, de acordo com “critérios editoriais” (por muitas vezes, não condiz com a realidade dos fatos, ou seja, a imagem não com condiz com a identidade, com aquilo que realmente é – deturpação ou manipulação dos fatos de acordo com os interesses do emissor), o que vai ser veiculado. Com a efervescência e até um certo modismo da prática do jornalismo colaborativo, a função do gatekeeper tem sofrido alterações. A audiência cada vez menos passiva e mais participativa deixa a figura do mesmo menos centralizada, mas sem perder a importância na estrutura da construção da notícia. Com a popularização do uso da internet, em âmbito mundial, muito tem se discutido sobre o trâmite de informações nas novas redes de relacionamento, sites de pesquisa e empresas que veiculam conteúdo online. Para o jornalismo, essa popularização da tecnologia pode ter até redefinido as regras do ofício, mas, os princípios e a finalidade do jornalismo ainda têm sido designados por algo mais elementar: “a função exercida pelas notícias na vida das pessoas”.
² Pierre Lévy é um filósofo francês da cultura virtual contemporânea. Vive em Paris e leciona no Departamento de Hipermídiada Universidade de Paris-VIII.  Especializou-se em abordagens hipertextuais quando lecionou na Universidade de Ottawa, no Canadá. Após sua graduação, preocupou-se em analisar e explicar as interações entre Internet e Sociedade. Desenvolveu um conceito de rede, juntamente com Michel Authier, conhecido como Arbres de connaissances (Árvores do Conhecimento). Lévy também pesquisa a inteligência coletiva focando em um contexto antropológico, e é um dos principais filósofos da mídia atualmente. Suas pesquisas se concentram principalmente na área da cibernética. Com isso, tornou-se um dos maiores estudiosos sobre a Internet, que por ser uma mídia informativa recente, não possui dimensões de repercussão e aplicação bem definidas.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Seria cômico se não fosse trágico

Foto


O documentário “The Yes Men Fix the World” narra a história de dois atores ativistas que se passam por porta-vozes de grandes multinacionais, com objetivo de recuperarem suas reputações frente aos seus públicos de interesse, sem que elas saibam é claro. 


Sendo assim, em uma de suas aparições, eles assumem, ao vivo, em cadeia nacional, para 300 milhões de pessoas, todos os prejuízos, impactos ambientais e danos causados as comunidades, incluindo contaminações aos lençóis freáticos, intoxicações e mortes de animais e seres humanos. Sem a ciência das organizações se comprometem a ressarcir ou indenizar todos os prejuízos causados. 


O longa está dividido em 9 partes no youtube.

Aqui, segue uma prévia de 10 minutos desse incrível filme que nos mostra que a imagem de muitas empresas não condiz com sua identidade. 
Veja o preço que elas pagam, neste caso, ao se eximirem de alteridade e ética para com seus stakeholders. 
Deveria ser sempre assim. Felizmente, nos dias de hoje, a transparência, o fortalecimento da identidade corporativa, através dos laços institucionais, têm sido, cada vez mais, imprescindíveis para a perenidade e a valoração de qualquer tipo de negócio. 

Assista: 









quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A utilização dos memes como indicadores estratégicos das organizações



Na última semana, reli um livro chamado o Gene Egoísta de Richard Dawkins¹ (1976), que me remeteu ao conceito de MEME, termo muito usado atualmente e que, em minha visão, tem a ver com as mudanças paradigmáticas no contexto do organismo social, ou seja, nas organizações públicas, privadas e na sociedade como um todo. 
Antes de entrar no assunto, retomemos alguns aspectos que contextualizam a transição axiomática pela qual passamos:
 


A partir da década de 90, a ênfase na tecnologia digital baseada na interatividade, na formação de redes e na busca incansável de novas descobertas tecnológicas, mesmo quando não faziam muito sentido comercial, não combinava com a tradição hierárquica de controle e autoritarismo advindos de sistemas burocratizados ou fundamentalistas das organizações, fossem elas públicas ou privadas. Elas viviam, e muitas delas vivem até hoje das reminiscências atávicas do capitalismo pós-revolução industrial.
Poderíamos dizer que essa evolução difundiu, pela cultura de nossas sociedades, o espírito libertário dos movimentos dos anos 60. 


O resultado foi uma arquitetura de rede que, como queriam seus criadores, não pode ser mais controlada e centralizada, pois passou a ser composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão.
Essa rede foi sendo apropriada por pessoas e grupos no mundo inteiro, com objetivos, e segmentada em nichos, com interesses específicos, bem diferentes das preocupações bilaterais que se encerraram com a Guerra Fria.

Isto quer dizer que o capitalismo informacional, com base nas novas tecnologias digitais, se configura num contexto menos ideológico e mais sistêmico, ou seja, pragmático, dialógico e não linear alinhado às interfaces do organismo social movido por um modelo COMPENSATÓRIO. Esse, por sua vez, busca o equilíbrio social, ambiental e econômico que fortaleça politicamente os laços institucionais entre organizações e sociedade, hoje dispersada em rede, mesmo com todas as deficiências estratégicas que dificultam a existência de uma força social politizada capaz de consolidar, em curto prazo, indicadores e objetivos bem definidos.

Vivemos um momento de transição e, no entanto, partimos para a utilização imediata de novos conceitos como, por exemplo, o de Sustentabilidade que se amalgama com todas as ideologias no decorrer da evolução humana e da história.
Sendo assim, COMUNICADORES CONSULTORES ao se relacionarem com organizações, muitas vezes não se farão entender, ou serão mal compreendidos.
Voltemos agora ao meme:

Segundo Richard Dawkins, criador do conceito, o meme é um código cultural que prevalece de acordo com a sua força de transmissão e assimilação dentro do organismo social. Usado como metáfora, Dawkins, analogamente, observa o processo de evolução cultural, assemelhando-o à teoria da evolução de Darwin: um meme seria como um gene, ou seja, sobrevive aquele que melhor se adapta ao meio. Assim, como o gene, ele mantém sua capacidade ou força de persuasão, até ser eliminado ou superado por um novo meme.

Transpondo esse conceito para o mundo organizacional podemos inferir:

Os memes verticalizados, sejam os das organizações públicas, privadas ou da mídia eletrônica (que contém os códigos culturais e que até há pouco tempo prevalecia e conduzia soberano, a conduta social) defrontam-se, hoje, com novos memes, que se formam nas redes sociais dentro do ambiente das mídias digitais, num embate constante com o automatismo da REPLICAÇÃO EGOÍSTA ou verticalizada.

Ele descreve os seres humanos (aqui no caso, também, as organizações formadas por eles), como veículos e replicadores de genes (porção do DNA capaz de produzir um efeito no organismo que seja hereditário e possa ser alvo da seleção natural) e de memes que se replicam e sobrevivem de forma semelhante aos genes, através de um processo de seleção e competitividade. Segundo ele, somos veículos, mas não necessariamente serviçais:

"Somos construídos como máquinas de genes e educados como máquinas de memes, mas temos o poder de nos revoltar contra os nossos criadores. Somos os únicos na Terra que temos o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas".

Para Dawkins, uma das razões para o grande apelo exercido pela teoria da seleção de grupo talvez seja o fato de ela se afinar completamente com os IDEAIS MORAIS E POLÍTICOS partilhados pela maioria de nós. Como indivíduos ou organizações, não raro, nos comportamos de forma egoísta (identidade). Nos momentos idealistas reverenciamos e admiramos aqueles que colocam o bem-estar dos outros em primeiro lugar (imagem).

Na maioria das vezes o “altruísmo” no interior das organizações se faz acompanhar pelo egoísmo e conflito de interesses entre elas. Aí a necessidade de uma POLÍTICA COMPENSATÓRIA, entendendo-se por isso, a função de cada uma delas, com FOCO NOS SEUS OBJETIVOS (missão e visão) e RESULTADOS, respeitando a cultura de todos aqueles envolvidos no processo.
 

Fundamentalismo Organizacional
 

Como em qualquer tipo de fundamentalismo, o organizacional ou empresarial fica preso aos memes advindos do pensamento individualista da burguesia em ascensão pós-revolução francesa (século XVIII) que deu início a revolução industrial (século XIX). À época passamos da produção artesanal, para a produção industrial em massa. Como Karl Marx dizia, a exploração do homem pelo homem. O homem visto como extensão da máquina.

Advindos da evolução do pensamento científico administrativo desta época, os memes originados do taylorismo e fordismo, mesmo que ultrapassados, permanecem vivos e atuantes, mesmo com as mudanças proporcionadas pelas tecnologias da informação, principalmente, a digital.

Saímos da semântica da aplicabilidade dos termos “capitalismo”, “comunismo”, “sustentabilidade” para nos atermos à historicidade, à dialética, à prática. O ponto de partida é o SISTEMA DE COMPENSAÇÃO que prossegue com o esclarecimento de uma evolução que desloca a sociedade de um modelo de submissão para um modelo interativo e reivindicatório, cada vez mais contundente, devido às diversas filtragens e trocas de informações.

O conceito de sustentabilidade da forma como é proposto, portanto, muitas vezes soa genérico demais, para não dizer utópico, para grande parte das organizações. Explicada de forma específica, pragmática e sistêmica, a SUSTENTABILIDADE, obedecendo a uma semântica mais adequada ao mundo corporativo, possibilita uma melhor recepção de sua complexidade e aplicabilidade pelos líderes organizacionais.

Enfim, a sustentabilidade mais do que um conceito, é um processo evolutivo da sociedade, ou seja, faz parte da metamorfose que se deu de baixo para cima graças à formação de memes horizontais e transversais. Eles evoluíram, como consequência dos embates entre grupos, organizações e sociedade e se fortaleceram, principalmente, com o advento das tecnologias digitais.  

Como adverte Dawkins, devemos lembrar que a evolução não procede no interesse dos genes, nem daqueles indivíduos que carregam os memes, mas apenas no exclusivo interesse dos próprios memes. É por esse motivo que tanto os memes, quanto os genes, são descritos como “egoístas”. Os replicadores (pessoas, grupos, organizações, sociedade organizada) não são egoístas no sentido de seus hedonismos e idiossincrasias. São egoístas no sentido de que serão replicados, se puderem sê-los. No caso dos memes, eles nos usarão para que possam ser copiados e permanecerão aqueles com maior força de persuasão/impacto dentro do organismo social, dependentes de estratégias e projetos bem definidos, sem se interessarem por seus efeitos sobre nós, sobre nossos genes, sobre nosso planeta ou sociedade. 


Fonte: Aberje 

¹ Richard Dawkins nasceu  em Nairobi, Quênia, em 1941. Lecionou zoologia na Universidade da ,California, em Berkeley e na Universidade de Oxford, Inglaterra  Em 2005 foi eleito o mais influente intelectual britânico pela revista Prospect, e nesse mesmo ano assumiu a cátedra Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência, que ocupou até 2008.___________________

ReferênciasDAWKINS, Richard. O Gene egoísta.  8º ed. Companhia das letras, 2013. 540p.CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede Vol.1. 13º ed. Paz e Terra, 2010. 698p.  MARX, Karl. O Capital: crítica da economia politica Vol.1. 31º ed. Civilização Brasileira, 2013. 571p.  

A COMUNICAÇÃO INTERNA, mais do que a IMAGEM, fortalece A IDENTIDADE ORGANIZACIONAL

No último artigo falei sobre o posicionamento do Papa Francisco e da sua importância como líder e porta voz da Igreja Católica. 

A contundência de suas declarações vem, através de sua imagem, a fortalecer, ou melhor, a REFORMULAR A MISSÃO DA IGREJA que segundo ele é a DE TRANSMITIR O AMOR E A MISERICÓRDIA DE DEUS, propondo uma nova VISÃO AO CATOLICISMO: AUMENTAR AO MÁXIMO A QUANTIDADE DE FIÉIS À INSTITUIÇÃO. 

Para Sua Santidade, a Igreja deve ser um lugar para todos e não uma pequena capela capaz de abrigar um “grupo seleto de pessoas” destinado a se tornar a base “criativa”, num mundo cada vez menos religioso, como defendia Bento 16, seu antecessor, com sua teologia ortodoxa e discriminatória.

Em uma de suas afirmações mais contundentes disse o papa:

“OS PROTAGONISTAS DA IGREJA SÃO OS FIÉIS E NÃO A HIERARQUIA.” 

Utilizo-me dessa introdução para exemplificar e contextualizar como acredito que deveria ser o posicionamento de qualquer corporação ao que tange o planejamento estratégico de comunicação, tendo como ponto de partida a comunicação interna.




Na percepção da  Análise SWOT,  vejo a dificuldade das organizações em entendê-la ou colocá-la em prática. Eis o motivo: não é a sociedade  que deve se adaptar a elas(ameaças) e sim elas às demandas do organismo social (oportunidades), caso não queiram ficar presas à sua NATUREZA FUNDAMENTALISTA.


Percebo, numa análise subjetiva, a nossa natureza egoísta. Sendo as organizações formadas por pessoas, na maioria das vezes, ficam presas às suas idiossincrasias(fraquezas). 


Uma vez que as corporações funcionam através de decisões de pessoas: altruísmo, pensamento coletivo, apreender o outro, ouvi-lo, interagir; deveriam fazer parte de suas preocupações de caráter interno (forças) e não só se limitarem a emissão de mensagens aos stakeholders que reforcem uma "relação" vertical e autômata. Esse deveria ser o objetivo maior da comunicação corporativa.  


Focadas num modelo de COMUNICAÇÃO INTERATIVO e DIALÓGICO ALIADO à GESTÃO teriam mais segurança e firmeza na tomada de decisões. 
Mais do que comunicados gerenciais ou da alta gestão organizacional, os canais de comunicação interna e suas peças deveriam ter como objetivo integrar a FAMÍLIA CORPORATIVA, ou seja, utilizar a interação e a troca de conhecimento como meio de diagnosticar e reformular processos e operações para obtenção de resultados perenes.
Para isso é imprescindível a participação de todos os colaboradores (independente de hierarquia ou área de atuação), tirando-os do automatismo, enxergando-os como produtores de ideias e conhecimento.

A valorização da potencialidade humana diminui o ABSENTEÍSMO e o TURNOVER, permitindo que as organizações mantenham seus colaboradores alinhados à missão, visão e a estratégia organizacional. Sendo assim, a imagem passa a refletir o fortalecimento da identidade institucional. 
Um modelo moderno de gestão não deve se ater somente a transmitir informação, mas, sim, criar um AMBIENTE COMPENSATÓRIO em que os colaboradores possam discutir e questionar as informações.

Acreditar que as  soluções estão exclusivamente sitiadas no alto escalão é um erro. Os líderes devem perguntar e não só dar respostas, pois quem está no dia a dia das operações tem mais conexão com a realidade dos fatos.
Segundo Priscila Tescaro, consultora em comunicação interna, “é necessária uma atualização da mentalidade dos gestores para acompanhar a evolução do mundo que está mudando cada vez mais rápido e agilmente”. 

O sucesso de Napoleão Bonaparte¹ como general se deu pela escolha de oficiais; pelo mérito e não pela hierarquia ou títulos de nobreza, como ocorria até 1789, início da Revolução Francesa², com a Monarquia Absolutista³.
Revolução Francesa


A maioria das organizações e seus líderes ficam presos às ideias, muitas delas advindas do século XIX, e não acompanham a MUTAÇÃO CULTURAL. Corporações aderem à retórica da sustentabilidade, para fortalecer imagem e não identidade. Sendo assim, o objetivo, por muitas vezes, fica preso ao discurso e a construção de significados falaciosos (greenwhashing, socialwashing). É preciso conscientizá-las de que imagens não se sustentam por muito tempo se não forem condizentes as suas identidades. A sociedade, nos dias de hoje, anda menos míope. 

Fonte: Aberje

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¹ Napoleão Bonaparte (em francês: Napoléon Bonaparte, nascido Napoleone di Buonaparte; Ajaccio, 15 de agosto de 1769 — Santa Helena, 5 de maio de 1821) foi um líder político e militar durante os últimos estágios da Revolução Francesa. Adotando o nome de Napoleão I, foi imperador da França de 18 de maio de 1804 a 6 de abril de 1814, posição que voltou a ocupar por poucos meses em 1815 (20 de março a 22 de junho). Sua reforma legal, o Código Napoleônico, teve uma grande influência na legislação de vários países. Através das guerras napoleônicas, ele foi responsável por estabelecer a hegemonia francesa sobre maior parte da Europa.
² A reavaliação das bases jurídicas do Antigo Regime foi montada à luz do pensamento Iluminista, representado por Voltaire, Diderot, Montesquieu, John Locke, Immanuel Kant etc. Eles forneceram pensamentos para criticar as estruturas políticas e sociais absolutistas e sugeriram a ideia de uma maneira de conduzir liberal burguesa. A situação social era tão grave e o nível de insatisfação popular tão grande que o povo foi às ruas com o objetivo de tomar o poder e arrancar do governo a monarquia comandada pelo rei Luis XVI. O primeiro alvo dos revolucionários foi a Bastilha. A Queda da Bastilha em 14 de Julho de 1789 marca o início do processo revolucionário, pois a prisão política era o símbolo da monarquia francesa.

³ Monarquia absoluta ou absolutista, segundo a definição clássica, é a forma de governo monárquico na qual o monarca ou rei exerce o poder absoluto, isto é, independente e superior ao poder de outros órgãos do Estado. O monarca está acima de todos os outros poderes e concentra em si os três poderes do constitucionalismo moderno - legislativo, executivo e judicial.

Algumas monarquias têm legislaturas fracas ou simbólicas e outros órgãos governamentais que o monarca pode alterar ou dissolver a vontade.



segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Papa contesta dogmatismo da Igreja Católica

Estratégia ou posicionamento isolado?

fonte: Aberje 

por Ricardo Bressan
 
“A descoberta final é que somos fundamentalistas. Esses fundamentos são os sapatos com os quais caminhamos pela vida. Embora úteis, não deixam de ser uma superfície artificial que nos isola do solo vivo. Sair da construção desses fundamentos nos faz conhecer o alivio e a possibilidade de expansão. E aí, muito além do conforto do sapato, podemos conhecer o que é ‘santo’, o que é essencial.” Nilton Bonder¹ 
 
Felizmente, o Vaticano despertou, ao que me parece, para um posicionamento frente à mudança paradigmática que se instala no organismo social. Ou mudam sua estratégia, ou perderão cada vez mais fiéis (públicos de interesse) para instituições menos ortodoxas e fundamentalistas. 
 
O Papa Francisco reflete, com seu carisma e interação, as características de um verdadeiro líder ou porta voz.  Ao criticar a obsessão da Igreja pela proibição do aborto, casamento gay e contracepção, questiona o dogmatismo ou fundamentalismo católico de forma veemente, assim fortalece e agrega valor a identidade dessa instituição que há muito anda fragilizada. 
 
Desejo que as organizações, sejam elas religiosas, públicas, privadas e outras, sigam esse exemplo. Graças às manifestações das minorias, muitas delas começam a enxergar que não estão mais lidando com uma sociedade meramente submissa. 
 
Instituições devem se posicionar estrategicamente, notando que não é ela que deve se adaptar aos seus valores e cultura, mas sim enxergar suas forças e fraquezas diante à MUTAÇÃO CULTURAL EXTERNA, para que possam aproveitar as oportunidades frente a uma sociedade cada vez mais CREDORA DE COMPENSAÇÕES que valham o seu investimento, seja ele espiritual, emocional ou financeiro.
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¹ Rabino Nilton Bonder é escritor reconhecido nacional e internacionalmente como pensador nas áreas de humanismo, filosofia e espiritualidade, tem livros publicados com grande sucesso nos EUA, na Europa e na Ásia. No Brasil, seu livro mais recente, O Sagrado, editado pela Rocco, figurou na lista dos mais vendidos. Também publicou A alma imoral, adaptado para o teatro.
 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Transitamos do individualismo para a alteridade organizacional

Fonte: Aberje

Numa nova configuração de paradigmas, as organizações – públicas, privadas, entidades de classe e outras – devem se enxergar como parte do organismo social e reconhecerem nele um SISTEMA DE COMPENSAÇÃO (econômico, social e político) de acordo com o segmento em que atuam, assim como identificarem o impacto causado aos seus públicos de interesse. 


Nesta nova conjuntura, hoje denominada de “SOCIEDADE EM REDE1”, imagens organizacionais não se sustentam por muito tempo se forem antagônicas às suas identidades.  Estas, por sua vez, devem ser construídas com ALTERIDADE, ou seja, respeitando os valores, especificidades e a cultura de seus stakeholders. Para isso, é necessária uma DIALÉTICA COMPENSATÓRIA com todos eles, imprescindível para agregar valor organizacional e consolidar resultados duradouros. “A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. DEVEMOS ESPECIALMENTE RECONHECER QUE SOMOS UMA CULTURA POSSÍVEL ENTRE TANTAS OUTRAS, MAS NÃO A ÚNICA.” François Laplantine2.

  “Não há nessa nação nada de bárbaro e de selvagem, pelo que me contaram, a não ser porque cada qual chama de barbárie aquilo que não é de costume; como verdadeiramente parece que não temos outro ponto de vista sobre a verdade e a razão a não ser o exemplo e o modelo das opiniões e os usos do país em que estamos".  Michel de Montaigne3.

É primordial que a comunicação, seja ela a institucional ou a mercadológica, esteja alinhada ao modelo de gestão. A ideia é a conexão aliada à ação de forma ubíqua a todos os setores ou áreas organizacionais, com o objetivo de transmitir uma mensagem uníssona. Como num quebra-cabeça, só se chega à perfeição, ou melhor, mais próximo dela, se as peças estiverem conectadas.Sendo assim, esse SISTEMA tem como prioridade agregar valor aos produtos e serviços das organizações, como reflexo da marca ou identidade institucional, aumentando a credibilidade frente aos seus stakeholders. Não se trata somente de estratégia e de potencial competitivo, mas da antecipação em relação à MUTAÇÃO CULTURAL AXIOMÁTICA.    

market share, nos dias de hoje, não é mais tão dependente somente da qualidade dos produtos, serviços e publicidade, mas da capacidade de se projetar frente aos anseios dos públicos de interesse muito mais informados e conectados à complexidade do funcionamento organizacional. É cada vez mais comum vermos minorias sociais saírem de seu lugar comum de submissão e da condição de DEVEDORAS perante as organizações, para o papel de CREDORAS POTENCIAIS de uma nova configuração que beneficie a sociedade como um todo. Nessa conjuntura só sobreviverão aquelas que se alinharem a um SISTEMA DE COMPENSAÇÃO que concilie o retorno financeiro às demandas sociais e ambientais. A velha proposição – “A população geral não sabe o que está acontecendo, e nem mesmo sabe que não sabe.” Noam Chomsky4 – não é tão condizente à realidade atual.   

Referências: 
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede Vol.1.  13º ed. Paz e Terra, 2010. 698p. BONDER, Nilton. Tirando os sapatos. Editora Rocco, 2013. 256p.  
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O conceito de SOCIEDADE EM REDE defendido por Manuel Castells não é uma mera soma dos conceitos de sociedade com o de rede e sim o resultado da mediação das afinidades com as tecnologias, o que vai permitir e/ou manter em comunicação, em tempo real, pessoas e grupos de pessoas independentemente da sua localização geográfica, tempo e traços de união. Um conceito que está diretamente atrelado a uma nova percepção do espaço/tempo.

2 Laplantine François, nascido em 1943, é um pesquisador francês em etnologia e antropologia de renome internacional. Seu campo de estudo é etnopsiquiatria ou etnopsicanálise. Graduou-se em 1982, doutorado em antropologia  pela Universidade de Paris V-Sorbonne. Ele dirigiu o Departamento de Antropologia Laplantine.


Michel Eyquem de Montaigne ( 1533/1592) foi um político, filósofo e escritor francês, considerado como o inventor do ensaio pessoal. Nas suas obras, mais especificamente nos seus ensaios, analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas da sua época e tomando a generalidade da humanidade como objeto de estudo.
Noam Chomsky (1928) é linguista, filósofo e ativista político norte-americano. Tornou-se conhecido por suas críticas contra a política externa americana. É professor do Massachusetts Institute of Technology. Seu nome está associado à criação da gramática generativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, sendo o seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky.