segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sustentabilidade não é filantropia

O princípio da sustentabilidade vai muito além de ações pontuais de assistencialismo ou filantropia. Não devemos considerá-lo, somente, em ações momentâneas e isoladas.



Práticas sustentáveis devem fazer parte do planejamento estratégico, portanto, intrinsecamente ligadas ao modelo de gestão organizacional, ser de caráter permanente, equilibrando resultados financeiros, sociais e ambientais.

Apesar de agregar valor e competitividade a uma empresa, um processo de gestão sustentável, não deve ser considerado com o fim exclusivo de gerar lucros.

A sustentabilidade vem de encontro a uma prática ampla e, por muitas vezes, difícil de gerir, de acordo com os interesses de todos os públicos envolvidos pelas ações organizacionais. Respeitando seus stakeholders e desenvolvendo práticas que valorizem e respeitem esses públicos, com certeza, o lucro seria consequência inevitável de um processo responsável e altruísta.

Por fim, a governança corporativa não deve se apoderar desta prática com a ideia de se promover como empresa cidadã, pois não se trata exclusivamente de uma ação de marketing, mas, sim, da sua promoção e valoração de acordo com sua responsabilidade, real preocupação e poder de ação, quanto às questões sociais, ambientais e econômicas, seja no ambiente em que se insere ou na sociedade como um todo.


A comoditização do Mundo

Os seres humanos, por muitas vezes, acreditam que o mundo deva se adaptar as suas ideias e vontades, não o contrário. Assim, nos tornamos pessoas limitadas, numa sociedade em constante transformação que não se adaptará as nossas idiossincrasias.

Como nós, as organizações, sejam privadas, públicas, entidades de classe, devem romper com a mecânica autômata de que a realidade deva se adaptar as suas ideias e, sim, percorrer o sentido inverso: “fazer a análise da realidade concreta para mudar o curso da história.” Como afirma Francisco Viana[1] em seu livro Comunicação Empresarial de A a Z .

Quais são os valores que os públicos de interesse esperam das organizações?
 Vivemos um processo de descentralização, da comoditização das informações, dos produtos e serviços, que condiciona e não determina o comportamento e maneira de agir da sociedade. É uma nova estrutura que a era do conhecimento nos leva a aceitar, ou ficaremos à deriva.

As condições são inevitáveis para organizações que queiram sobreviver à comunicação transversal proporcionada pelas mídias digitais. Portanto, como descreve Pierre Lévy[2], em seu livro Cibercultura, a técnica ou tecnologia (no caso, a digital) condiciona a sociedade, mas não a submete ou a determina em suas ações.

O que é determinante no que se refere às organizações que fazem parte da sociedade, ou seja, inseridas no meio social, são as estratégias. Se elas não estiverem alinhadas e em constante mudança frente às técnicas condicionantes da cultura social serão expurgadas, caso mantenham-se burocratizadas.

Vivemos hoje numa sociedade que vem reformulando seus valores, a cultura e a sua maneira de interagir com o mundo. As organizações não devem agir de forma diferente. Devem ter uma administração contingencial, adequada aos valores e a cultura da sociedade. Sendo assim, o que leva as empresas e as marcas ao fracasso é o determinismo e não o condicionamento.

Os referenciais advindos da revolução industrial não se encaixam mais num mundo que exige mudanças imediatas e emergentes. No seu plano fechado, as organizações devem buscar mudanças internas como as reformulações éticas, de valores e as culturais, que interajam com seus públicos de interesse.


[1] Jornalista, doutorado em Filosofia Política (PUC-SP) e consultor de empresas.
[2] LÉVY, Pierre. Cibercultura. 3ºedição. São Paulo: Editora 34. 2010

Fonte: Aberje

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A garrafa de rum


Acabo de voltar de viagem, e como de costume sempre trago de lembrança algum agrado material para entes e pessoas queridas. Desta vez, trouxe uma garrafa de rum, bebida tradicional do país que visitei, para o Dário, zelador do prédio, onde mantenho meu escritório. Já havia presenteado algumas pessoas, que apesar dos agradecimentos - não que eu esperasse nada em troca -, nenhuma delas foi tão enfática em demonstrar sua satisfação e sua felicidade por ter sido lembrada, como o zelador. 

Eu disse a ele: - Beba neste fds hein!!! 

Ele respondeu: - Jamais! Vou deixar guardado lá no barzinho da minha casa, como lembrança de um grande amigo. Imagina, lembrou de mim, enquanto viajava. Fiquei muito feliz com isso. 

Onde quero chegar? 


Dário, não é uma pessoa pobre ($), ganha três salários mínimos por mês, sua esposa e filhas trabalham. Ele mantém um bom carro para passear com a família aos fds, e para viajar todos os anos, como a maioria das famílias de classe média brasileira. Portanto, na minha opinião, neste caso, por exemplo, Dário tem um bom padrão de vida, mas tem limites para gastar. Fica claro, pelo menos para mim, que, quando, o indivíduo tem limites para o consumo, mais humano e rico de espírito ele se torna. Na verdade, o que me parece, é que, quanto mais "limite" de capital tem as pessoas, ou seja, menos condicionadas à avidez do consumo, mais humanistas, altruístas, sensíveis e menos míopes para enxergar a verdadeira e a maior riqueza do mundo: o ser humano.

A transgressão transcende nossas maneiras de pensar e enxergar o Mundo


O "equilíbrio" não está na aceitação do condicionamento impositivo, mas sim, por meio da transgressão dele. Só desmistificando, arrancamos as máscaras corruptoras e manipulativas. Só apurando ou investigando nos aproximamos de uma REALIDADE SIGNIFICATIVA. Por meio do diagnóstico, não encontramos a cura, mas podemos nos aproximar dela, tomando ações efetivas.

Altruísmo e alteridade: questões de bom senso


Quem vê o mundo, com menos avaro, é mais simples e eficiente, tem alteridade, ouve e enxerga com mais facilidade ao seu redor, tem ganhos substanciais e significativos. Quanto mais se usufrui, e menos se conduz a vida por meio do prazer imediato e descartável, daquilo que tem mais durabilidade do que a conveniência ególatra, mais profícuos e maduros os resultados da existência humana. O limite de vínculos externos e estereotipados aproxima as espécies. Podemos ser condicionados e persuadidos por uma memética egoísta, mas temos condições de não obedecer a ela.

Condicionamento x inversão de valores


Somos seduzidos, persuadidos, dia a dia, pela exterioridade, que correspondemos com nossa avidez consumista, condicionada de acordo com nossas externalidades, as quais nos fazem perder o controle sob a vida. Para que as administremos com qualidade, temos que internalizar e priorizar a inversão de valores, ou melhor, priorizar o que vem de dentro, e não ceder às mensagens persuasivas que corroem a audição e a visão ao nosso redor. Assim, deixamos a simplicidade de lado e priorizamos a "complexidade" do senso comum. Quando mais complexa a vida e a exigência ególatra da exterioridade condicionada, mais tristes e insatisfeitos ficamos com ela. Transformemos nossas visões e missões, transcendamos nossos velhos padrões e defeitos de caráter, e nos moldemos de forma mais altruísta, dialógica e humana. Deixemos de lado a mecânica que nos condiciona e nos torna seres infelizes, para uma memética que opere uma mutação na maneira do SER e de VER o MUNDO. Voemos, nos libertemos.

Somos complacentes e não resilientes


É Fantástica a nossa complacência com os grandes meios de comunicação, a nossa falta de alteridade e altruísmo. Os indivíduos são análogos, e se diferenciam pela falta de escrúpulos, pela falta de humanismo, pela falta de assertividade e resiliência para realmente se modificarem. Para sermos humanistas devemos nos enxergar no outro, o que não fazemos de forma alguma, pois só vemos aquilo que nos convém, ao que estamos condicionados. Nos eximimos da culpa ou qualquer responsabilidade social, pois temos a "ratificação" da sociedade do espetáculo que "justifica" nossa egolatria e o nosso modo maniqueísta e excludente de enxergar o mundo.