sexta-feira, 22 de julho de 2016

Afinal, como surgiram os memes?

Devido à recorrência com que a palavra meme vem sendo citada nos meios de comunicação de massa, instigou-me a republicar este artigo veiculado em novembro de 2013 na Associação Brasileira de Comunicação Emapresarial (ABERJE). Na época, comentei sobre um livro que acabara de ler: O Gene Egoísta de Richard Dawkins¹ (1976), o qual me remeteu a esse termo que passou a fazer parte do vocabulário da sociedade, sem que ela se desse conta da origem. Mais que um neologismo, o meme é um conceito que em minha visão tem a ver com as mudanças paradigmáticas no contexto do organismo social, ou seja, nas organizações, nos indivíduos, na sociedade como um todo.
Antes de entrar no assunto, retomemos alguns aspectos que contextualizam a transição axiomática pela qual passamos.  A partir da década de 90, a ênfase na tecnologia digital baseada na interatividade, na formação de redes e na busca incansável de novas descobertas tecnológicas, mesmo quando não faziam muito sentido comercial, não combinava com a tradição hierárquica de controle e autoritarismo advindos de sistemas burocratizados ou fundamentalistas das organizações, fossem elas públicas ou privadas. Elas viviam, e muitas delas vivem até hoje das reminiscências atávicas do capitalismo pós-revolução industrial. Poderíamos dizer que essa evolução difundiu, pela cultura de nossas sociedades, o espírito libertário dos movimentos dos anos 60.
O resultado foi uma arquitetura de rede – como não queriam seus criadores – que não pode mais ser controlada e centralizada, pois passou a ser composta por milhares de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão. Essa rede foi sendo apropriada por pessoas e grupos no mundo inteiro, com objetivos, e segmentada em nichos, com interesses específicos, bem diferentes das preocupações bilaterais que se encerraram com a Guerra Fria.
Ricardo Bressan - 07.16
Isto quer dizer que o capitalismo informacional, com base nas novas tecnologias digitais, configura-se num contexto menos ideológico e mais sistêmico, ou seja, pragmático, dialógico e não linear alinhado às interfaces do organismo social, movido por um modelo compensatório. Esse, por sua vez, busca o equilíbrio social, ambiental e econômico que fortaleça politicamente os laços institucionais entre organizações e sociedade, hoje dispersada em rede, mesmo com todas as deficiências estratégicas que dificultam a existência de uma força social politizada capaz de consolidar, em curto prazo, indicadores e objetivos bem definidos.
; font-family: 'Surveyor Text', 'Surveyor SSm A', 'Surveyor SSm B'; font-size: 20px;"> Vivemos um momento de transição e, no entanto, partimos para a utilização imediata de novos conceitos como, por exemplo, o de Sustentabilidade que se amalgama com todas as ideologias no decorrer da evolução humana e da história. Sendo assim, comunicadores e consultores corporativos, ao se relacionarem com organizações, muitas vezes não se farão entender, ou serão mal compreendidos.

                                       

                                     Agora, voltemos ao meme



Segundo Richard Dawkins, criador do conceito, o meme é um código cultural que prevalece de acordo com a sua força de transmissão e assimilação dentro do organismo social. Usado como metáfora, Dawkins analogamente observa o processo de evolução cultural, assemelhando-o à teoria da evolução de Darwin: um meme seria como um gene, ou seja, sobrevive aquele que melhor se adapta ao meio. Assim, como o gene, ele mantém sua capacidade ou força de persuasão, até ser eliminado ou superado por um novo meme. Transpondo esse conceito para o mundo organizacional podemos inferir: os memes verticalizados sejam os das organizações públicas, privadas ou da mídia eletrônica – que contém os códigos culturais e que até pouco tempo prevalecia e conduzia soberano, a conduta social – defrontam-se, hoje, com novos memes, que se formam nas redes sociais dentro do ambiente das mídias digitais, num embate constante com o automatismo da replicação egoísta ou verticalizada.
Ele descreve os seres humanos – aqui no caso, também, as organizações formadas por eles —, como veículos e replicadores de genes (porção do DNA capaz de produzir um efeito no organismo que seja hereditário e possa ser alvo da seleção natural) e de memes que se replicam e sobrevivem de forma semelhante aos genes, através de um processo de seleção e competitividade. Segundo ele, somos veículos, mas não necessariamente serviçais, pois podemos desafiar os genes egoístas que herdamos, e da mesma forma os memes egoístas com que fomos doutrinados. Podemos estimular e ensinar o altruísmo: “somos construídos como máquinas de genes e educados como máquinas de memes, mas temos o poder de nos revoltar contra os nossos criadores. Somos os únicos na Terra que temos o poder de nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas”.
Para Dawkins, uma das razões para o grande apelo exercido pela teoria da seleção de grupo talvez seja o fato de ela se afinar completamente com os ideais morais e políticos partilhados pela maioria de nós. Como indivíduos ou organizações, não raro, nos comportamos de forma egoísta (identidade). Nos momentos idealistas reverenciamos e admiramos aqueles que colocam o bem-estar dos outros em primeiro lugar (imagem).
Na maioria das vezes o “altruísmo” no interior das organizações se faz acompanhar pelo egoísmo e conflito de interesses entre elas. Aí a necessidade de uma política compensatória, entendendo-se por isso, a função de cada uma delas, com foco nos seus objetivos (missão e visão) e resultados, respeitando a cultura de todos stakeholders envolvidos no processo.

Fundamentalismo Organizacional
Como em qualquer tipo de fundamentalismo, o organizacional ou empresarial fica preso aos memes advindos do pensamento individualista da burguesia em ascensão pós-revolução francesa (século XVIII) que deu início a revolução industrial (século XIX). Na época passamos da produção artesanal, para a produção industrial em massa. Como Karl Marx dizia, a exploração do homem pelo homem. O homem visto como extensão da máquina.
Advindos da evolução do pensamento científico administrativo desta época, os memes originados do taylorismo e fordismo, mesmo que ultrapassados, permanecem vivos e atuantes, mesmo com as mudanças proporcionadas pelas tecnologias da informação, principalmente, a digital.
Saímos da semântica, da aplicabilidade dos termos capitalismo, comunismo, sustentabilidade para nos atermos à historicidade, à dialética, ao conhecimento humanístico. O ponto de partida é osistema de compensação que prossegue com o esclarecimento de uma evolução que desloca a sociedade de um modelo de submissão para um modelo interativo e reivindicatório, cada vez mais contundente, devido às diversas filtragens e trocas de informações.
O conceito de sustentabilidade da forma como é proposto, por muitas vezes soa genérico demais, para não dizer utópico, para grande parte das organizações. Explicada de forma específica, pragmática e sistêmica, a sustentabilidade obedecendo a uma semântica mais adequada ao mundo corporativo, possibilita uma melhor recepção de sua complexidade e aplicabilidade pelos líderes organizacionais. Enfim, a sustentabilidade mais do que um conceito, é um processo evolutivo da sociedade, ou seja, faz parte da metamorfose que se deu de baixo para cima graças à formação de memes horizontais e transversais. Eles evoluíram como consequência dos embates entre grupos, organizações e sociedade e se fortaleceram, principalmente, com o advento das tecnologias digitais.
Como adverte Dawkins, devemos lembrar que a evolução não procede no interesse dos genes, nem daqueles indivíduos que carregam os memes, mas apenas no exclusivo interesse dos próprios memes. É por esse motivo que tanto os memes, quanto os genes, são descritos como “egoístas”. Os replicadores (pessoas, grupos, organizações, sociedade organizada) não são egoístas no sentido de seus hedonismos e idiossincrasias. São egoístas no sentido de que serão replicados, se puderem sê-los. No caso dos memes, eles nos usarão para que possam ser copiados e permanecerão aqueles com maior força de persuasão/impacto dentro do organismo social, dependentes de estratégias e projetos bem definidos, sem se interessarem por seus efeitos sobre nós, sobre nossos genes, sobre nosso planeta ou sociedade.

¹ Richard Dawkins nasceu  em Nairobi, Quênia, em 1941. Lecionou zoologia na Universidade da ,California, em Berkeley e na Universidade de Oxford, Inglaterra  Em 2005 foi eleito o mais influente intelectual britânico pela revista Prospect, e nesse mesmo ano assumiu a cátedra Charles Simonyi de Compreensão Pública da Ciência, que ocupou até 2008.
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Referências:
DAWKINS, Richard. O Gene egoísta.  8º ed. Companhia das letras, 2013. 540p.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede Vol.1. 13º ed. Paz e Terra, 2010. 698p.
MARX, Karl. O Capital: crítica da economia politica Vol.1. 31º ed. Civilização Brasileira, 2013. 571p.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Toda ação tem uma reação: Massacre na Florida, meme que se exime da causa

Como sempre, o massacre na boate LGBT, na Florida, é mostrado como causa, não como consequência, pela grande mídia. 

Não há espaço para reflexão sobre o fato. De imediato, a chacina é mostrada, como sempre: de forma maniqueista; o bem contra o mal. 


O termo proferido por Bush, pós 11 de setembro: "Guerra ao Terror", tornou-se um meme de expressão mundial. O termo teve como objetivo escamotear a causa, que para Edgar Morin, um dos maiores pensadores contemporâneos, está no apoio incondicional oferecido pelos Estados Unidos a Israel que leva a considerar Israel o instrumento da América, bem como a fazer da América instrumento de Israel e, mais amplamente dos judeus. 

Essa visão é fatal tanto para América quanto para Israel. Na atual situação, a frustração, o ressentimento, a nostalgia de uma grande civilização passada ressuscitam o sonho da Umma, a grande comunidade islâmica transnacional, e fazem de um bilhão de muçulmanos um reservatório mundial no qual se podem recrutar os jihadistas.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Sustentabilidade não é filantropia

O princípio da sustentabilidade vai muito além de ações pontuais de assistencialismo ou filantropia. Não devemos considerá-lo, somente, em ações momentâneas e isoladas.



Práticas sustentáveis devem fazer parte do planejamento estratégico, portanto, intrinsecamente ligadas ao modelo de gestão organizacional, ser de caráter permanente, equilibrando resultados financeiros, sociais e ambientais.

Apesar de agregar valor e competitividade a uma empresa, um processo de gestão sustentável, não deve ser considerado com o fim exclusivo de gerar lucros.

A sustentabilidade vem de encontro a uma prática ampla e, por muitas vezes, difícil de gerir, de acordo com os interesses de todos os públicos envolvidos pelas ações organizacionais. Respeitando seus stakeholders e desenvolvendo práticas que valorizem e respeitem esses públicos, com certeza, o lucro seria consequência inevitável de um processo responsável e altruísta.

Por fim, a governança corporativa não deve se apoderar desta prática com a ideia de se promover como empresa cidadã, pois não se trata exclusivamente de uma ação de marketing, mas, sim, da sua promoção e valoração de acordo com sua responsabilidade, real preocupação e poder de ação, quanto às questões sociais, ambientais e econômicas, seja no ambiente em que se insere ou na sociedade como um todo.


A comoditização do Mundo

Os seres humanos, por muitas vezes, acreditam que o mundo deva se adaptar as suas ideias e vontades, não o contrário. Assim, nos tornamos pessoas limitadas, numa sociedade em constante transformação que não se adaptará as nossas idiossincrasias.

Como nós, as organizações, sejam privadas, públicas, entidades de classe, devem romper com a mecânica autômata de que a realidade deva se adaptar as suas ideias e, sim, percorrer o sentido inverso: “fazer a análise da realidade concreta para mudar o curso da história.” Como afirma Francisco Viana[1] em seu livro Comunicação Empresarial de A a Z .

Quais são os valores que os públicos de interesse esperam das organizações?
 Vivemos um processo de descentralização, da comoditização das informações, dos produtos e serviços, que condiciona e não determina o comportamento e maneira de agir da sociedade. É uma nova estrutura que a era do conhecimento nos leva a aceitar, ou ficaremos à deriva.

As condições são inevitáveis para organizações que queiram sobreviver à comunicação transversal proporcionada pelas mídias digitais. Portanto, como descreve Pierre Lévy[2], em seu livro Cibercultura, a técnica ou tecnologia (no caso, a digital) condiciona a sociedade, mas não a submete ou a determina em suas ações.

O que é determinante no que se refere às organizações que fazem parte da sociedade, ou seja, inseridas no meio social, são as estratégias. Se elas não estiverem alinhadas e em constante mudança frente às técnicas condicionantes da cultura social serão expurgadas, caso mantenham-se burocratizadas.

Vivemos hoje numa sociedade que vem reformulando seus valores, a cultura e a sua maneira de interagir com o mundo. As organizações não devem agir de forma diferente. Devem ter uma administração contingencial, adequada aos valores e a cultura da sociedade. Sendo assim, o que leva as empresas e as marcas ao fracasso é o determinismo e não o condicionamento.

Os referenciais advindos da revolução industrial não se encaixam mais num mundo que exige mudanças imediatas e emergentes. No seu plano fechado, as organizações devem buscar mudanças internas como as reformulações éticas, de valores e as culturais, que interajam com seus públicos de interesse.


[1] Jornalista, doutorado em Filosofia Política (PUC-SP) e consultor de empresas.
[2] LÉVY, Pierre. Cibercultura. 3ºedição. São Paulo: Editora 34. 2010

Fonte: Aberje

sexta-feira, 17 de julho de 2015

A garrafa de rum


Acabo de voltar de viagem, e como de costume sempre trago de lembrança algum agrado material para entes e pessoas queridas. Desta vez, trouxe uma garrafa de rum, bebida tradicional do país que visitei, para o Dário, zelador do prédio, onde mantenho meu escritório. Já havia presenteado algumas pessoas, que apesar dos agradecimentos - não que eu esperasse nada em troca -, nenhuma delas foi tão enfática em demonstrar sua satisfação e sua felicidade por ter sido lembrada, como o zelador. 

Eu disse a ele: - Beba neste fds hein!!! 

Ele respondeu: - Jamais! Vou deixar guardado lá no barzinho da minha casa, como lembrança de um grande amigo. Imagina, lembrou de mim, enquanto viajava. Fiquei muito feliz com isso. 

Onde quero chegar? 


Dário, não é uma pessoa pobre ($), ganha três salários mínimos por mês, sua esposa e filhas trabalham. Ele mantém um bom carro para passear com a família aos fds, e para viajar todos os anos, como a maioria das famílias de classe média brasileira. Portanto, na minha opinião, neste caso, por exemplo, Dário tem um bom padrão de vida, mas tem limites para gastar. Fica claro, pelo menos para mim, que, quando, o indivíduo tem limites para o consumo, mais humano e rico de espírito ele se torna. Na verdade, o que me parece, é que, quanto mais "limite" de capital tem as pessoas, ou seja, menos condicionadas à avidez do consumo, mais humanistas, altruístas, sensíveis e menos míopes para enxergar a verdadeira e a maior riqueza do mundo: o ser humano.

A transgressão transcende nossas maneiras de pensar e enxergar o Mundo


O "equilíbrio" não está na aceitação do condicionamento impositivo, mas sim, por meio da transgressão dele. Só desmistificando, arrancamos as máscaras corruptoras e manipulativas. Só apurando ou investigando nos aproximamos de uma REALIDADE SIGNIFICATIVA. Por meio do diagnóstico, não encontramos a cura, mas podemos nos aproximar dela, tomando ações efetivas.

Altruísmo e alteridade: questões de bom senso


Quem vê o mundo, com menos avaro, é mais simples e eficiente, tem alteridade, ouve e enxerga com mais facilidade ao seu redor, tem ganhos substanciais e significativos. Quanto mais se usufrui, e menos se conduz a vida por meio do prazer imediato e descartável, daquilo que tem mais durabilidade do que a conveniência ególatra, mais profícuos e maduros os resultados da existência humana. O limite de vínculos externos e estereotipados aproxima as espécies. Podemos ser condicionados e persuadidos por uma memética egoísta, mas temos condições de não obedecer a ela.