quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

MANIFESTO DE REPÚDIO


Ter Bolsonaro como governante é uma das maiores afrontas que uma democracia pode suportar. Como podemos aceitar um machista, xenófobo, homofóbico, racista, com todos esses tipos de preconceito arraigados, como presidente da República. 
Nunca na história democrática tivemos um “líder” tão indolente que não respeita, que ataca as pessoas e as instituições sem qualquer limite de moralidade, que transgride os direitos humanos e o Estado de Direito. 

Para mim, quem continua defendendo uma figura psicótica e insana, como foi Hitler - e isso não é uma hiperbolização, e sim uma comparação adequada -, está sendo complacente com o fascismo, e com a possível instauração de uma ditadura. 
Não dá mais para viver na cegueira, a situação não é grave, é desesperadora.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Bolsonaro, o fantoche do marketing político



É disto que os emissores de discursos e mensagens se utilizam: pegam uma coisa vazia e a preenchem, utilizando-se da metalinguagem, criam novos signos que são disparados para a opinião pública. Não é uma questão de ideologia, mas de transmissão de simbolos e significados. A extrema direita conseguiu criar um discurso extremamente eficiente para seus objetivos. Pegaram a imagem de uma figura (Bolsonaro) sem relevância política e a impregnaram de significados persuasivos que a projetou do anonimato. Devido aos diversos golpes que a esquerda vinha tomando, de acordo com os seus supostos envolvimentos com corrupção, ela foi perdendo sua força junto aos escândalos envolvendo algumas empresas privadas, todos os fatos, extremamente, potencializados pela mídia. Ai entra o jogo do poder que se utiliza de estratégias espúrias, porém muito eficazes, para afastar todas os ideais socialistas. Fortalecer fundamentos religiosos foi uma delas. Nada melhor, para uma sociedade, quase que toda cristã, do que um candidato cristão e militar para arrumar a barafunda do país. Após isso, iniciou-se um grande marketing de guerrilha, disseminando nas mídias digitais uma série de informações manipulativas, as famosas fake news, apoiando a ditadura militar, como um regime que propiciou um excelente desenvolvimento econômico de inclusão sem corrupção. Muitos foram ludibriados com essas persuasões e passaram a acreditar neste fantoche da extrema direita. Enfim, formou-se assim uma democracia sem voz, governada por um mandatário também sem voz, conservador, preconceituoso, ignorante, inculto, que se comunica com a sua nação por meio das mídias digitais.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

A filosofia e a sociologia como meios de individuação e transgressão

Como dizia a pensadora e filósofa política Hannah Arendt, vivemos um TOTALITARISMO INVISÍVEL, que, a cada dia, fica mais escancarado, ou melhor, visível, pelo menos, para aqueles que têm senso crítico, visão humanística e dialógica do mundo. Estamos deixando “O ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA”, para a prática efetiva dela.
O governo pretende deixar de investir nas cadeiras catedráticas de Filosofia e Sociologia, pois elas formam seres humanos resistentes que adquirem senso de individuação, e contestam a “moral” e os “direitos estabelecidos”. Parece que estamos voltando a época, que aqueles que eram contra o poder vigente era visto como transgressor e subversivo. O que precisamos hoje são de seres humanos mais subversivos e menos subservientes.

O principal objetivo dessa conjuntura é formar seres técnicos e autômatos, que tenham uma visão limitada, ou seja, despojados de senso crítico e desenvolvimento humanista, sendo mais fácil manter a subserviência e a administração do desejo de sublevações.
A antológica visão transgressora e progressista do Jung é bem conveniente para o momento que estamos passando. Ele diz que o inconsciente é um "outro" que se apresenta no decorrer da vida. Reconhecer e dar a palavra a esse outro é individuar-se, não isolar-se. Nesse processo, questões éticas e morais terão de ser enfrentadas, pois, ao entrar no processo, a pessoa deixa de se submeter obrigatoriamente aos ditames sociais, culturais, patrióticos, ou qualquer coisa que possa ser vista como regra moral, desenvolve uma ética própria, que pode ser contrária à moral vigente. 


Por exemplo, uma mulher muçulmana que vive em um ambiente fundamentalista pode querer exercer seu pensamento e pode desenvolver valores próprios quanto ao vestir-se ou ao comportar-se socialmente.
Esse abandono das regras vigentes tem um preço. Algo precisa ser dado em troca, e é nesse lugar que Jung afirma a importância do indivíduo. Só ele cria novos valores, só ele destrói valores ditatoriais que são aceitos por todos.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

A evolução dos media: meios de inovação e desumanização




A arte de se comunicar, desde que essa surgiu, foi precedida por uma técnica. No decorrer de milênios essas técnicas evoluíram. Do ponto de vista técnico ou tecnológico há uma evolução que tem grande valoração no âmbito da utilização e “progresso” na vida dos indivíduos, como forma de facilitar e modernizar os processos de vivificação. 

Mas se analisarmos e investigarmos no âmbito humanístico, da historicidade, do seu caráter dialógico, a técnica não tem a mesma valoração e equivalência que seus traços progressistas apregoam no campo das ideias, pelo contrário, quanto mais se aperfeiçoam as técnicas, mais característicos são seus traços alienantes e manipulativos. Sendo assim, quanto mais se evolui a técnica, mais se desumaniza o indivíduo. 

Perpassam séculos, décadas e o conteúdo do discurso continua o mesmo, o que muda é a técnica ou a tecnologia de difusão, que afasta ainda mais o homem da natureza dos fatos. No campo da evolução tecnológica, os eventos podem ter um grande valor na evolução da técnica, mas podem não ter a mesma valoração e equivalência no campo humanístico e das ideias. 

Para mim, estes pensamentos continuam a fazer todo o sentido: 

 “O homem é um animal bastante manso e divino se amansado por uma verdadeira disciplina, se não receber disciplina falsa, será o mais feroz dos animais que a terra pode produzir” Comenius 

Segundo Roland Barthes, o discurso mitológico, não nega as coisas; a sua função é, pelo contrário, falar delas; simplesmente, purifica-as, inocenta-as, fundamenta-as em natureza e em eternidade, dá-lhes uma clareza, não de explicação, mas de constatação. Passando da história à natureza, faz uma economia: abole a complexidade dos atos humanos, confere-lhes a simplicidade das essências, suprime toda e qualquer dialética, qualquer elevação para lá do visível imediato, organiza um mundo sem contradições, sem profundeza, um mundo plano que se ostenta em sua evidência, e cria uma afortunada clareza: as coisas, sozinhas, parecem significar por elas próprias. 

A técnica ou tecnologia não é determinista, mas é criada e desenvolvida junto a um processo cultural e educativo homogêneo que doutrina, automatiza e condiciona o individuo. A humanidade não evolui analogamente junto à técnica ou à tecnologia. A técnica nasce dentro de uma cultura que não acompanha a sua evolução. Existe formação técnica, mas pouca educação política, histórica, humanística e dialógica. Não se desenvolvem seres pensantes e críticos, e sim, autômatos. 

Sendo assim, o indivíduo continua como extensão de suas criações. No mundo digital não é diferente, continuamos utilizando a tecnologia de forma alienante, esquecendo-se do seu viés humanístico e integracionista, potencialidade que não é aproveitada, pois vivemos numa sociedade doutrinária, enrijecida para o dialogismo. 

Como diz Manuel Castells: “a evolução tecnológica, desencadeada pela engenhosidade humana, levou a sociedade à submissão e ao automatismo, fugindo do controle de seus criadores”. 
Não culpo o desenvolvimento tecnológico, mas é fato que a educação, a cultura, a forma humanística e dialógica de nos comunicarmos não evolui analogamente à técnica. A tecnologia ou a técnica surge dentro de uma cultura, que não consegue acompanhar humanisticamente a evolução do objeto. Assim, enquanto, gênios da tecnologia aceleram a evolução, os não gênios (vou chamar delicadamente de ignorantes, somente por limitações cognitivas) demoram muito mais tempo para evoluir. 

Pensando assim, o que poderia ser feito é acelerar as formas de educação e humanização. Formar mais gênios humanistas do que técnicos. Ou pelo menos equilibrar. Mas é impossível, ou melhor, inviável, para o poder que manipula as instituições disciplinares e educativas, que se opere dentro do organismo social procedimentos que erradiquem a ignorância e desperte a consciência e a capacidade de pensar e criticar dos indivíduos, levando-os a desbaratar toda a forma de construção de poder e dominação das massas. 

A evolução cultural jamais alcançará a tecnológica, pois se assim fosse, desconstruir-se-ia toda uma aparelhagem ou teia de poder, que é mantida por uma espécie de “Totalitarismo Invisível”. Constrói-se um discurso que nos leva a pensar em liberdade, quando na verdade continuamos presos pela teia de significados que nos é submetida. Recepcionamos a mensagem como querem que absorvamos, e continuamos a conceber a evolução tecnologia, ao mesmo tempo, que não percebemos a inércia dialógica e humanística. A tecnologia evolui, mas os discursos ditados por ela continuam os mesmos. 

Respondemos à reprodução da sofisticação do mesmo, mantendo nossa espécie a deriva. Submetemo-nos a transmissão cultural que nos mantem estúpidos. Enfim, a educação, a cultura não formam seres humanísticos e dialógicos, como a tecnologia cria seres técnicos. Desta forma ela continuará servindo, exclusivamente, como ferramenta de doutrinação e alienação, bem manejada por aqueles que detêm a condução dos discursos.

quinta-feira, 16 de março de 2017

CDQ - Cultura da Dependência Química

Estive na Cracolândia, na Rua Dino Bueno, próxima a Estação da Luz.
Como jornalista, senti a necessidade de mostrar a opinião pública, a verdadeira realidade dessa feira da destruição, que não é mostrada pelos meios de comunicação tradicionais. Lá, a rua é fechada, têm bares e hotéis (para o consumo da droga). E o mais impressionante: barracas com toldos armados, como as feiras tradicionais, onde, ao invés de alimentos, vendem-se pedras de crack, pesadas ao gosto do freguês. É um número incontável de pessoas que transitam por ali, esbarrando-se e comerciando do lado de fora dá feira; alimentos, bebidas alcoólicas e pertences pessoais, quando não mais resta dinheiro. Há os cigarreiros, os cachaceiros que trocam um cigarro ou um gole de cachaça por um trago dá substância. Ouve-se os berros: Cigarreiro! Cachaceiro! Quem tem cinza! (material indispensável para o uso do crack). Lá tudo é moeda de troca: roupas, celulares, notebooks, acessórios.

Caixas de som estridentes recitam os poemas de hip hop de decadência e criminalidade. As pessoas transformam-se em zumbis. E a sociedade vira as costas para isso. Essa minoria sofre de uma doença, considerada assim pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Precisamos apoiar as ONGs e as instituições que atuam como agentes multiplicadoras da reinserção social. Dá para contar nos dedos quantas instituições trabalham para a realização desse ato humanitário. Precisamos disseminar a cultura de recuperação.








No mundo, são diversas as minorias que foram descriminalizadas. Cada uma delas, ao seu tempo, vêm conquistando direitos, cada vez maiores. Nesta masmorra, não há diferenciações culturais, de classes ou minorias. Lá há médicos, dentistas, advogados, professores, jornalistas, trabalhadores de todos os segmentos, grávidas, crianças e adolescentes, homossexuais, transexuais, desempregados, ex- presidiários e outros. Nunca vi tanta diversidade que permanece em constante conflito devido à irracionalidade a que leva o crack. Enfim, todos,que ali estão, têm uma história para contar. Todos são seres humanos como nós.






terça-feira, 6 de setembro de 2016

Quem são os Outros?

Proponho neste artigo a avaliação de características intrínsecas que às organizações deveriam inserir no cerne de suas operações: a transparência corporativa, como a alteridade, o altruísmo, a empatia. Sendo assim, em seus discursos, as altas lideranças organizacionais devem aprender a mostrar seus pontos de vista, sem desconsiderar os demais. Sendo menos ególatras, expandem suas visões e limitações, enxergam além. Com alteridade tornam-se menos míopes, vão aonde dificilmente iriam.

“Os protagonistas da igreja são os fiéis e não a hierarquia. ” Papa Francisco

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Acreditar que as soluções estão exclusivamente sitiadas no alto escalão da empresa é um erro. Os líderes devem perguntar e não só dar respostas, pois quem está no dia a dia das operações tem mais conexão com a realidade dos fatos.
O resultado, advindo do fortalecimento da identidade institucional, remove defeitos, agrega valores, protege e fortalece a imagem organizacional de forma mais eficiente e segura. A estratégia é pensar e agir com simplicidade. 

Pensamento que gera comportamento ético, transparente e eficaz. O problema é que, como se fossem hospedeiras, as organizações herdam o parasitismo atávico que as prendem ao hedonismo, em benefício próprio, em detrimento do seu entorno.

A melhor forma de preservar a reputação da empresa é resgatar a memória, a história da companhia que forneçam diagnósticos para criação de estratégias e operações que consolidem a confiança dos públicos de interesse, e sirvam de ferramenta para prevenir e gerir futuras crises.

A base de toda realidade não é só a que se enxerga dentro da empresa. Estar adaptada aos seus “valores” parece sempre mais seguro, mas é a interação com seus públicos de interesse que deve fornecer informação para alicerçar e fortalecer o planejamento estratégico da organização.

Sem suas convicções, corporações podem desmistificar as suas certezas e verem o que de fato é real. Fora do ambiente organizacional se enxerga a distinção entre as culturas de seus públicos de interesse (stakeholders).

Uma organização que apura, investiga e diagnostica toda sua cadeia de valores, consegue planejar, implantar e executar ações estratégicas que fortaleçam sua identidade, além de servirem de benchmarking (referência) aos seus concorrentes, colaboradores e todos aqueles inseridos no organismo social, por meio de um processo de Compensação e Recompensa. Não há necessidade de esperar que a “epidemia” se alastre e se torne incontrolável, tendo a organização formas eficazes de evitá-la.

A grande dificuldade, tanto dos indivíduos, quanto da coletividade formada por eles, é o apego ao tecnicismo, desvinculado do conhecimento humanístico, histórico e da capacidade dialógica.

A identidade organizacional deve ser construída com alteridade – não o contrário, com base num hedonismo egoísta -, ou seja, respeitando os valores, especificidades e a cultura de seus públicos de interesse (stakeholders), para isso é necessária uma dialética compensatória com todos eles, imprescindível para agregar valor institucional à organização e consolidar resultados duradouros (Recompensa).

Sistema de Compensação e Recompensa: todos os que fazem parte do organismo social são Credores e Devedores. Portanto, as organizações deveriam pensar: se elas estão inseridas na sociedade, envolvem direta ou indiretamente aqueles que fazem parte dela, sendo assim, além de serem credoras, devem compensar seus públicos de interesse, adequando a cultura organizacional às necessidades deles.

A falácia da Sustentabilidade

A Sustentabilidade deveria ser vista como um paradigma ou processo a ser executado. No entanto, dão a ela um sentido imagético, e a utilizam de forma mercadológica, visando, diretamente, o retorno financeiro. Ela deveria ser aplicada em todas as áreas da vida organizacional e do individuo, e não se restringir somente a gestão responsável dos recursos naturais ou do meio ambiente. Minimizam o conceito para ludibriar a massa e reduzir sua extensão de significado. A sustentabilidade trata da mudança de hábitos em tudo que engloba uma gestão social e financeira – e não exclusivamente a ambiental -, tanto nas organizações, quanto na vida de todos os seres humanos. Enfim, tudo é sustentabilidade, é a amplitude de nossa visão de mundo, é nossa mudança de atitudes perante ao próximo de forma equilibrada, coerente e responsável, visando sempre a alteridade.

A redefinição social que se deu com o surgimento da sustentabilidade serviu de instrumento de desvio do pensamento crítico e contestador. Ficou cada vez mais fácil às oligarquias escamotear as deficiências sociais e econômicas. Como diz o grande pensador Manuel Castells “a consciência ambiental”, um dos pilares da sustentabilidade, permeia as instituições e seu valor ganhou apelo político a preço de ser manipulada na prática diária das empresas e burocracias.

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Paradoxalmente, com o advento das mídias digitais, que proporcionou o surgimento de diversos formadores de opinião, é cada vez mais comum, vermos minorias sociais saírem de seu lugar comum de submissão e da condição de DEVEDORAS perante as organizações públicas e privadas, para o papel de CREDORAS POTENCIAIS de uma nova configuração que beneficie a sociedade como um todo.

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O propósito da Comunicação Institucional é, acima de tudo, a ênfase aos fatos positivos, ao lado da prevenção e da gestão de crises. A estratégia não é apenas ocupar espaços nas mídias, sejam elas pagas (publicidade) ou espontâneas (interesse público, por meio das assessorias de imprensa), mas ampliar e consolidar a confiança e a credibilidade (transparência) junto aos formadores de opinião, transmitir segurança aos stakeholders e a sociedade, de forma geral.

O maior ativo de uma empresa é intangível em termos mercadológicos, mas, paradoxalmente, é a preservação de sua identidade e valores, que a mantém viva, longe de riscos desnecessários e, por consequência, sua rentabilidade ou equilíbrio financeiro.

As organizações devem deixar seu lado impositivo por natureza, seu afã por Recompensas e ter um olhar voltado para as Compensações, direcionadas a seus públicos de interesse.

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Não é só a cultura, os valores, a missão e a visão corporativa que contam, mas sim, até que ponto ela se preocupa e se alinha a cultura e valores de seus públicos de interesse. A base de toda realidade não é só a que se enxerga dentro da organização. É da interação com seus stakeholders que vem o alicerce e o embasamento estratégico corporativo. Como diz o antropólogo francês François Laplantine: “o conhecimento da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas. Devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.”

Fonte: Aberje

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Não vivemos um paradigma determinista, mas sim condicionante

Inicio este artigo comentando sobre a mutação cultural axiomática que se perfaz na sociedade, proporcionada pelas mudanças causadas pela “Cibercultura’. Essa mudança estrutural principalmente ao que diz respeito à interação, ou seja, ao relacionamento e a forma de se comunicar que se deu no organismo social, aos poucos se defronta com a exclusividade da soberania das organizações sobre a construção de significados, proporcionando condições de mudança do status quo. Isso quer dizer que hoje a técnica, especificamente as mídias digitais, abre possibilidades que algumas opções culturais ou sociais não poderiam ser pensadas no passado.

Como diz Pierre Lévy[1], muitas possibilidades são abertas, mas isso não quer dizer que serão aproveitadas. No entanto, a tecnologia dá condições para que situações ou estruturas sejam modificadas, mas isso não significa que ela seja determinante. Por exemplo, o surgimento das mídias sociais não determina automaticamente o desenvolvimento da inteligência coletiva, apenas fornece a ela condições, ou seja, um ambiente propício para que isso se efetive (LÉVY, 2010). [2]



“Uma técnica ou tecnologia (aqui no caso a digital) é produzida dentro de uma cultura, e uma sociedade encontra-se condicionada por suas técnicas. E digo condicionada e não determinada. Essa diferença é fundamental.” (LÉVY, 2010, p. 26).

Por trás da tecnologia agem e reagem ideias, projetos sociais, utopias, interesses econômicos, estratégias de poder, toda a ambição dos homens e organizações em sociedade. Sendo assim, qualquer atribuição de um sentido único à técnica ou tecnologia, como diz Levy, só pode ser dúbia. A ambivalência ou a multiplicidade de significações e dos projetos que envolvem as técnicas são evidentes. Não há como pensarmos em determinismo (LÉVY, 2010).


Nem tudo que é feito nas redes digitais é bom. Isso seria a mesma coisa que dizer que todos os espetáculos são excelentes. Lévy faz um apelo:

“Que permaneçamos abertos, benevolentes, receptivos, em relação à novidade. Que tentemos compreendê-la, pois a verdadeira questão não é ser contra ou a favor, mas sim conhecer as mudanças qualitativas na ecologia dos signos, o ambiente inédito que resulta da extensão das novas redes de comunicação para a vida cultural dos cidadãos e organizações. Apenas dessa forma seremos capazes de desenvolver estas novas tecnologias dentro de uma perspectiva humanista.” (LEVY, 2010, p. 26).

As organizações não devem negligenciar as implicações proporcionadas pela tecnologia digital. Não devem deixar de contemplar as implicações culturais da cibercultura em todas as suas dimensões.

As minorias não se opõem às mídias digitais e às redes que se formam dentro delas, ao contrario, são aqueles (organizações) cujas posições de poder, os privilégios (principalmente culturais, econômicos e políticos) e os monopólios, que se encontram ameaçados pela emergência dessa nova configuração da comunicação.

A cibertecnologia deixou exclusivamente a grande competição econômica mundial entre grandes empresas, monopólios e oligopólios e entre os grandes conjuntos geopolíticos para responder, também, aos objetivos de usuários que procuram aumentar a autonomia do indivíduo e sua capacidade cognitiva e democrática. 

Portanto, encoraja o ideal de ativistas da rede que desejam melhorar a colaboração entre pessoas e a diminuição da exclusividade das organizações e da grande mídia na construção de discursos, mensagens e imagens, assim dando vida a diferentes formas de inteligência coletiva e distributiva. Essas relações heterogêneas e interativas entram, constantemente, em conflito com as organizações.

Os movimentos democráticos nascidos nas redes, por mais que tenham influenciado na política e na agenda das organizações, instalando de maneira exitosa mudanças nas suas agendas, ainda, não conseguiram amadurecer e acumular forças suficientes para si mesmos.

Para isso, é preciso a formulação de uma estratégia, projeto e execução que os permitam constituir uma força social e política, focadas numa democracia direta, capaz de consolidar seus objetivos. Mesmo com essas deficiências, as redes sociais dão origem a um ambiente comunicacional paradigmático, onde se configura uma interação caracterizada pela transversalidade. Portanto, um relacionamento que não mais se restringe aos conteúdos produzidos pelas mídias tradicionais e às áreas de comunicação organizacionais que se caracterizam por uma comunicação vertical.

Além de se diferenciar no caráter estético, com a construção, a convergência de mídias e a não linearidade, as mídias digitais permitem a divergência de opiniões e abrem espaços às discussões e às formações das comunidades. Por isso, é um risco às mídias tradicionais e às organizações. À primeira por ter que se adaptar a essas gerações que têm outro tipo de relação com a informação e o conhecimento e à segunda por ter que mudar seus processos de gestão, ou seja, sair de uma administração que ainda vigora, em muitas organizações/empresas, aos ditames do taylorismo e fordismo.

A nova cultura comunicacional condiciona a adaptação das organizações a essa realidade, num processo que muito se assemelha à teoria da evolução de Darwin. A geração X se esforça para se condicionar, se adaptar ao meio ou opta por negligenciá-la, diferentemente daquela que já nasce persuadida pela evolução.
As empresas não são diferentes, aquelas que surgem, as startups, têm mais facilidade em se condicionarem às novas tecnologias e às mudanças que elas causam no organismo social. Essa nova configuração é uma ameaça às organizações acostumadas e condicionadas a um modelo mecanizado, o que torna muito mais difícil a adaptação, pois ele está ligado ao automatismo e a valores, cultura, missão e visão organizacional que precisam ser modificadas.

Muitos, sem citar os da geração Y, já vêm se condicionando às novas mídias e utilizando-as de forma “agressiva” contra organizações que os desrespeitam como consumidores e cidadãos. Imaginem o que serão delas com a nova geração adaptada e muito mais exigente, veloz e voraz por informação e interação digital.

Por que será que a maioria das organizações não utiliza essas plataformas, com o mesmo potencial que os consumidores ou cidadãos vêm utilizando-as, com objetivo de engajá-los institucionalmente e posicionar sua marca de forma ética, fortalecendo identidade e utilizando-se da comunicação mercadológica para refletir a imagem de forma idônea, condizente com o que realmente é ou faz?

Algumas organizações/empresas já têm, através de suas propagandas, mostrado a consciência dessa nova configuração social. Basta saber se as imagens que divulgam condizem com as suas reais identidades. Enfim, é tempo de as organizações repensarem seus modelos de gestão e adotarem novas estratégias que exijam transparência financeira, social e ambiental perante seus públicos de interesse e a sociedade, se quiserem sobreviver à evolução.

Referências
[1] Pierre Lévy (Tunísia, 1956) é filósofo, sociólogo e pesquisador em ciência da informação e da comunicação e estuda o impacto da Internet na sociedade, as humanidades digitais e o virtual. Vive em Paris e leciona no Departamento de Hipermídia da Universidade de Paris

[2] LÉVY, Pierre. Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Editora 34, 2010.

Fonte: Aberje